Mario quintana
Crônica sobre Mario Quintana, na voz de Rafael Santos


Mario Quintana nasceu na noite muito fria de 30 de julho de 1906, na cidade de Alegrete, Rio Grande do Sul. É o quarto filho de Celso de Oliveira Quintana, farmacêutico, e de Dona Virgínia de Miranda Quintana tendo, como irmãos mais velhos Marieta e Milton, além do caçula, Celso. Viveu toda a infância na cidade, num casarão de esquina.
Quintana, sobre seu nascimento: “Nasci prematuramente e fazia um frio abaixo de zero. Eram oito horas da noite quando meu pai chamou minha irmã e meu irmão para dizer que eu havia nascido. Eles pediram quatro vinténs para comprar rapadura. Foram ao mercado da esquina, que estava quase fechando. Por isso souberam da hora. Quer dizer, eu fui saudado com duas rapaduras de quatro vinténs.”
Considerado o "poeta das coisas simples", com um estilo marcado pela ironia, pela profundidade e pela perfeição técnica, ele trabalhou como jornalista quase toda a sua vida. Traduziu mais de cento e trinta obras da literatura universal, entre elas Em Busca do Tempo Perdido de Marcel Proust, Mrs Dalloway de Virginia Woolf, e Palavras e Sangue, de Giovanni Papini.
O início: Entre Porto Alegre e Alegrete
Em 1919, se muda para Porto Alegre, matriculado no Colégio Militar, onde iniciou suas primeiras composições literárias na Revista Hyloea, produzida pela Sociedade Cívica e Literária da Escola Militar. Com o declínio no desempenho escolar, desliga-se do colégio a pedido do pai. Jamais completou os estudos.
Na cidade, mergulhou na leitura dos novelistas russos, poetas simbolistas franceses e revistas de arte europeias, sendo assíduo frequentador da Biblioteca Pública do Estado publicou seus primeiros trabalhos. Inicia suas atividades no lugar onde mais tarde ele trabalharia como tradutor: a Livraria do Globo, mas como desempacotador de livros.
Ele retorna para a cidade natal em 1925 para trabalhar na farmácia do pai, ajudando na composição de fórmulas, na função de prático. Morre sua mãe. Foi premiado em um concurso de contos do Diário de Notícias, importante jornal da capital, com o “A sétima personagem”. Em 1927 retorna a Porto Alegre, depois da morte do pai, retomando sua atividade na Livraria do Globo, trabalhando na seção de literatura estrangeira. Tem um de seus poemas publicado na revista Para Todos, do Rio de Janeiro, que era dirigida pelo gaúcho Álvaro Moreyra. Voltou para Alegrete para residir na antiga casa do pai, juntamente com o irmão Milton.
Em 1929, ele volta em definitivo para Porto Alegre, trabalhando como copidesque do jornal O Estado do Rio Grande, dirigido por Raul Pilla. Colabora também com a Revista do Globo, importante periódico publicado pela Livraria e Editora Globo. Participa, em 1930, como voluntário das tropas que levam Getúlio Vargas ao poder. Ficou no Rio de Janeiro por seis meses. Quando voltou para a capital, retomou o trabalho no Estado do Rio Grande, onde ficou até o fechamento do jornal, por ordem do interventor Flores da Cunha.
Em 1934, tem sua primeira tradução publicada: Palavras e Sangue, de Giovanni Papini. Estima-se que Quintana tenha traduzido um sem-número de histórias românticas e contos policiais, sem receber créditos por isso - uma prática comum à época em que atuou na Editora Globo, de 1934 a 1955.
Primeiros poemas e “A Rua dos Cataventos”
No mesmo ano, publicou seu primeiro poema no jornal Correio do Povo. Vai novamente para o Rio de Janeiro, trabalhando no jornal Gazeta de Notícias. Publica poesias no carioca Diário de Notícias, por influência da poetisa Cecília Meireles, que conheceu na cidade e de quem era fã. Também publica poemas na Revista Ibirapuitã, de Alegrete. Um de seus admiradores é Monteiro Lobato.
Em 1940, é publicado A Rua dos Cataventos, livro de sonetos. Repercutiu tanto que vários deles foram transcritos para antologias e livros escolares. De acordo com Alexandre Veiga, arquivista do Núcleo de Memória da Casa de Cultura Mario Quintana, o livro repercutiu bastante no Rio de Janeiro, centro cultural do país. A partir daí, suas publicações foram sempre bem recebidas, assim como seu trabalho como tradutor.
Na revista de São Pedro, começa a publicação dos textos do Caderno H, que continuou posteriormente no Correio do Povo e foi lançado em livro. Em 1945, publica o livro Canções, ainda com versos metrificados mas com outros modelos poéticos, ora melancólicos, ora divertidos. Também publicou Sapato Florido, de poemas e prosa poética, e O Batalhão das Letras, voltado ao público infantil. Participou da fundação do Clube de Cinema de Porto Alegre. Enquanto traduzia o livro A Fugitiva, de Marcel Proust, perdeu algumas folhas de texto que havia traduzido, que voaram pela janela da pensão onde ele morava. Desculpou-se com o editor usando a sua verve poética: “a fugitiva fugiu pela janela!”
dulce helfer

“A Antologia Poética” e candidaturas frustradas na ABL
Nos anos 1950, começou a trabalhar no Correio do Povo, onde reeditou seus poemas no Caderno H até 1967. Publicou O Aprendiz de Feiticeiro, pela Editora Fronteira, de Porto Alegre. No ano seguinte, apresentou seus poemas em forma de quarteto no livro Espelho Mágico, publicado pela Editora Globo. Em Alegrete, a Editora Cadernos do Extremo Sul reúne textos no livro Inéditos e Esparsos.
Em 1966, em comemoração aos seus 60 anos, teve publicada a Antologia Poética, coletânea de poesias e outros trabalhos inéditos, organizada por Ruben Braga e Paulo Mendes Campos. Foi a primeira publicação editada para fora do Rio Grande do Sul. Em agosto daquele ano, foi saudado na Sessão da Academia Brasileira de Letras (onde concorreu a uma vaga por três vezes, tendo perdido em todas; recusou-se a se candidatar pela quarta vez, mesmo tendo como promessa ser aprovado por unanimidade) por Augusto Meyer e Manuel Bandeira, que fez um poema em sua homenagem. Em dezembro, recebeu o prêmio Fernando Chinaglia de melhor livro do ano. Em 1967, passou a publicar no Caderno H no Caderno de Sábado no Correio do Povo até 1980, quando saiu do jornal.
Na visão de Veiga, a candidatura frustrada para a ABL deve ter mexido com Quintana.
- Seria importante ter esse reconhecimento de seus pares. Mas ele optou por não se submeter às exigências e formalidades em busca desse reconhecimento, o que incluía visita aos demais acadêmicos para promover sua candidatura, coisa que ele não sabia - e não queria - fazer. Isso não afetou seu trabalho, nem a vida pessoal, pois era muito mais uma láurea que teria efeito dentro do campo da literatura, o qual já reconhecia Quintana sem que tivesse esse encargo - disse.
No mesmo ano, recebeu o título de Cidadão Honorário de Porto Alegre, outorgado pela Câmara de Vereadores. Na sua fala, destacou que “antes, ser poeta era um agravante, depois passou a ser um atenuante mas, diante disso, vejo que ser poeta é agora uma credencial.” Um ano depois, também foi homenageado em sua cidade natal. Lhe pediram para escolher um poema que constasse na placa que seria feita para a ocasião, ele respondeu que não conseguiria porque temia cometer algum erro e, para Mario, “um engano em bronze é um engano eterno.”
Publicou O Caderno H, na Editora Globo, uma seleção de textos publicados na coluna do jornal Correio do Povo. Recebeu a medalha Negrinho do Pastoreio, mais alta distinção do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, quando fez 70 anos. Publicou Apontamentos de História Sobrenatural e a antologia Quintanares, além da coletânea 14 Bis, com desenhos de vários cartunistas gaúchos. A Livraria do Globo edita a antologia Prosa & Verso, em formato paradidático, além de uma coletânea em inglês intitulada Chew Me Up Slowly (mastiga-me lentamente), com poemas do Caderno H. Editou duas novas antologias, uma em português (Na Volta da Esquina) e outra em espanhol (Objetos Perdidos y Otros Poemas).
Casa de Cultura Mario Quintana e os últimos trabalhos
Morou no Hotel Majestic por 12 anos, entre 1968 e 1980. Solitário, não casou e nem teve filhos. Foi despejado do hotel após o Correio do Povo interromper suas atividades por graves problemas financeiros, tendo deixado de pagar o aluguel do quarto. Com isso, o amigo e ex-jogador Paulo Roberto Falcão lhe ofereceu um dos quartos do Hotel Royal, de sua propriedade. A uma amiga que achou pequeno o quarto, Quintana disse: "Eu moro em mim mesmo. Não faz mal que o quarto seja pequeno. É bom, assim tenho menos lugares para perder as minhas coisas".
Ainda em 1980, edita livro com novas publicações, chamado Esconderijos do Tempo. Recebeu o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras. Alguns de seus poemas integram a coleção didática Para Gostar de Ler, juntamente com Cecília Meireles, Vinícius de Moraes e Henriqueta Lisboa. Estreou a peça A Estrela e A Sucata, baseado em seus poemas e montado pela sobrinha-neta Elena Quintana, que foi sua secretária durante 15 anos (1979-1994) e sua principal companhia nos últimos anos de vida. Publica A Nova Antologia Poética pela Editoria Codecri, outra compilação de textos. Recebeu o Prêmio Jabuti de Personalidade Literária do Ano, concedido pela Câmara Brasileira do Livro.
A mesma amiga que achou o quarto de Quintana pequeno conseguiu um apart-hotel no centro da cidade, onde o poeta viveu até falecer. Em 1983, Através da lei 7.803, promulgada em 8 de julho e aprovada por unanimidade na Assembleia Legislativa, da proposta do deputado Ruy Carlos Ostermann, o prédio do antigo Hotel Majestic, tombado como patrimônio histórico do Estado, em 1982, passa a denominar-se Casa de Cultura Mario Quintana. O quarto do poeta foi reconstruído em uma de suas salas, sob orientação de Elena.
Publica Lili Inventa o Mundo e foi escolhido para publicar um volume de seus textos na Coleção Os Melhores Poemas. Gravou, em LP duplo, uma Antologia Poética, com mais de 100 poemas, além da coletânea de poesia infantil Nariz de Vidro e uma segunda edição de Batalhão das Letras, além de O Sapo Amarelo, novo livro de poemas infantis e o mais vendido da 30a Feira do Livro de Porto Alegre. Escreveu poemas do Caderno H em algumas edições da Revista Veja.
Durante um de seus passeios cotidianos, no dia 6 de maio de 1983, foi atropelado, quebrando o fêmur. Pede que anotem a placa do carro. Quando todos acharam que seria para uma ação judicial, ele explica: “É pra jogar no bicho!”.
Foi escolhido patrono da edição seguinte da Feira do Livro e lançou novas coletâneas: Diário Poético (em forma de agenda), a Nova Antologia Poética, Primavera Cruza o Rio e o álbum Quintana dos 8 aos 80, que também foi tema de sua exposição alusiva aos 80 anos no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS). Lançou outras antologias (80 Anos de Poesia e Baú do Espanto) e uma edição em quadrinhos de Pé de Pilão.
Em 1987, lançou nova coletânea de textos do Caderno H, chamado Da Preguiça Como Método de Trabalho, além da publicação de um volume de prosas Preparativos da Viagem. Lançou o disco Quintanares & Cantares, com poemas musicados por Henrique Mann e interpretados por diversos músicos gaúchos.
Em 1988, publicou novo livro de textos em prosa intitulado Porta Giratória, além de A Cor do Invisível, livro com textos inéditos. Foi eleito Príncipe dos Poetas Brasileiros, sucedendo autores como Olavo Bilac e Olegário Mariano. Publicou novo livro com poemas inéditos chamado Velório sem Defunto e teve o texto infantil Lili Inventa o Mundo adaptado para o teatro. Em 1994, foi lançado pelo Instituto Estadual do Livro um conjunto de poemas musicados, chamado Cantando o Imaginário do Poeta, além da sua última publicação, Sapato Furado.
Faleceu no dia 5 de maio de 1994, aos 87 anos. Está sepultado no Cemitério São Miguel e Almas de Porto Alegre.
Legado
Segundo Veiga, Quintana foi publicando seus livros em função de suas próprias escolhas, de modo que formasse um painel literário que só ele saberia descrever. O conjunto da sua obra, reunindo livros mais e menos conhecidos, é que possui maior relevância para a trajetória do poeta. Apesar disso, a maioria das pessoas saberia citar apenas o nome de dois ou três livros. A obra de Quintana é muito mais lembrada pelos seus poemas em particular. O arquivista também arrisca dizer que o poeta teve uma exposição na mídia que lhe garantiu um bom destaque justamente por ter optado pela forma do poema curto, tornando acessível a leitura.
- Quintana manteve por muitos anos um trabalho que lhe aproximou do público em geral, sua "Agenda Poética", que tinha um verso ou poema para cada dia do ano. Foi um formato que impulsionou a obra do poeta para além dos círculos literários, alcançando o cotidiano da população - afirma.
Em 2001, durante a 47a edição da Feira do Livro, foi inaugurada a estátua de Mario Quintana, sentado em um banco, junto com Carlos Drummond de Andrade posicionado atrás dele, de pé, segurando um livro. Foi criada em bronze por Xico Stockinger e Eloísa Tregnago, intitulada “Monumento à Literatura”. Está localizada onde o poeta costumava passear: na Praça da Alfândega e pesa cerca de 200 quilos.
Apoio: Núcleo de Memória da Casa de Cultura Mario Quintana
ENEIDA SERRANO

ENEIDA SERRANO
